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BREVE HISTORIAL SOBRE A REGIÃO DA BAÍA DE MAPUTO: TRAVESSIA MAPUTO-KATEMBE

Documento actualizado

conferenciaNo âmbito das celebrações dos seus 80 anos naquele que foi o momento mais alto, o Arquivo Histórico de Moçambique realizou uma conferência internacional sob o lema “80 anos preservando a memória do país e 40 anos construindo a identidade nacional”, e teve lugar no Complexo Pedagógico do Campus Universitário da Universidade Eduardo Mondlene. O evento que contou com a participação de diversos actores da sociedade, juntou perto de 300 pessoas, desde, docentes, investigadores, estudantes, nacionais e estrangeiros e funcionários desta instituição de preservação histórica nacional.

A conferência foi antecedida pela exibição de um vídeo, de 10min, que retrata as diferentes áreas técnicas do AHM e os principais desafios institucionais face a sua missão. Do programa da Conferência constavam 4 painéis nomeadamente Arquivos e Investigação Científica; Fontes Arquivísticas e História; Arquivos e o Acesso a Informação e Arquivos e Administração Pública. Para além destes painéis, duas conferências; uma inaugural e uma de encerramento.
O Director do AHM, Prof. Doutor Joel das Neves Tembe, mostrou-se regozijado com os 80 anos da instituição que dirige, vincando que o evento “é um momento que serve de reflexão, momento que podemos discutir ciência, abordar sobre a nossa história e ainda conhecermos o percurso histórico do nosso Arquivo, que preserva a nossa história, a história pré-colonial, colonial e do pós-independência”.
Por seu turno, o presidente do Conselho Nacional de Arquivos, Dr. Grilo Lubrino, enalteceu o papel do Arquivo Histórico de Moçambique para o Estado, governo e sociedade. Tendo ainda, contextualizado esse papel nas reformas da Administração Pública em curso no país, em particular com a introdução do SNAE em 2010. Fez menção a alguns desafios em relação à preservação e gestão de documentos. Para o Reitor da Universidade Eduardo Mondlane, Prof. Doutor Orlando Quilambo, os arquivos “tem papel relevante para a humanidade, registam, conservam documentação para gerações vindouras”. Quilambo realçou ainda o “facto do Arquivo ser ponto de convergência de investigadores de quase todo o mundo”, tendo ainda mostrado o comprometimento da Universidade que dirige, nos esforços que o AHM empreende para ultrapassar desafios no que concerne à manutenção de infra-estrutura, equipamentos e a formação de quadros.

Conferência Inaugural
Moderada pela Prof. Dra. Benigna Zimba, teve como oradora a Professora Eugénia Rodrigues, docente e investigadora em Portugal e que trabalhou 20 anos no Instituto de Investigação de Lisboa. Entre outras, desenvolveu pesquisas sobre os Prazos da Corôa em Moçambique.
O tema apresentado pela Prof. Doutora Eugénia Rodrigues foi: “Os Arquivos e Escrita da História: as fontes coloniais e o estudo das formas de participação política das mulheres em Moçambique nos séculos XVIII e XIX”. Usando estudos de caso das unidades políticas que se desenvolveram em Moçambique entre os séculos XVI a XVIII, nomeadamente Monomotapa, Báruè, Quiteve, Marave e algumas pequenas chefaturas no Norte do Zambeze, a oradora procura perceber as formas do poder público das mulheres. Na sua apresentação, foi possível desprender o facto de que tanto nas sociedades matrilineares como patrelineares, as mulheres desempenharam funções de autoridade designadas por piamuenes, rainhas, mulheres grandes, imperatrizes, princesas. Estas mulheres desempenhavam vários papéis como interlocutoras com os mercadores, aconselhamento individual e colectivo, aprovação dos soberanos, guardiões de santuários, cerimónias de entronização de novos líderes, entre outros.
O debate centrou-se essencialmente em torno da necessidade de mais estudos na perspectiva em que a autora apresentava, pois segundo o Professor Firmino Mucavele, as mulheres em África tinham poderes espirituais, entre elas existiam feiticeiras e curandeiras, vincando a necessidade de estudos deste género poderem focalizar este multifacetado género de mulheres.
Para o Dr. Cândido Texeira, a Província de Inhambane seria um campo de estudo aprazível para estas matérias, visto que segundo este, existe uma lista de mulheres que por várias razões os maridos foram executados e outros pereceram por variadas razões, passando as mulheres a administrar os bens dos maridos.

A terminar o debate, a moderadora do painel louvou o rico estudo apresentado pela oradora, e enalteceu o papel da mulher como actor político, afirmando que de uma maneira geral independentemente do factor geográfico, a mulher, com maior ou menor grau, está presente no poder.

I PAINEL
Análise do Mercantilismo Agrário de 1800 a 1975 e o seu Legado na Economia Agrária de Moçambique”, Prof. Doutor Firmino Mucavele
Na sua apresentação, Mucavele constata a ausência de uma ponte entre o período colonial e pós colonial como um dos males que afecta a definição de política agrária e consequentemente proporciona o fraco desenvolvimento da agricultura no país. Salienta que diferente do período pós independência, no período colonial havia uma estrutura que dinamizava o processo agrário. De maneira geral, o autor procura neste estudo encontrar semelhanças nas políticas agrárias que possam ajudar no futuro plano estratégico do sector agrário.

Por seu turno, o Prof. Doutor Paolo Israel a sua apresentação teve como tema: “O Arquivo das Artes Performativas: Oportunidades e Desafios, Notas a partir do caso de Mueda”, onde enfatiza a importância das canções como fontes alternativas e complementares para a reconstituição da história, pois são um importante arquivo da consciência e memória de um povo e, neste caso do povo moçambicano. Por esse argumento, o orador procura fazer a re-leitura do Massacre de Mueda com recurso a mais de uma centena de canções recolhidas.

Sob o tema “O Tempo nos Ensaios e Monografias”, o Dr. Cândido Teixeira realçou que tanto na Universidade Pedagógica como na UEM os ensaios apresentados debruçam-se a períodos recentes da história de Moçambique, nomeadamente os séculos XX e XXI, em detrimento de períodos mais recuados. Para o orador, esta tendência é motivada, dentre vários factores, ao desconhecimento do acervo de que o Arquivo Histórico Moçambique dispõe, e à falta de espírito de pesquisa. Para alterar esta situação, o orador propõe ao Arquivo Histórico de Moçambique, uma maior divulgação do acervo existente e disponível para a consulta e retomar a produção da Revista Arquivo para que os investigadores e estudantes tenham a oportunidade de divulgar seus trabalhos.
No debate foram afloradas questões metodológicas sobre a escrita da História e outras relacionadas ao acesso as fontes. Sobre as questões metodológicas questionou-se sobre as diferenças hermenêuticas na abordagem entre as canções e as entrevistas.
A comunicação do Dr. Cândido Teixeira gerou um grande debate, com os estudantes a apresentarem queixas sobre as dificuldades de acesso às fontes. Porém, o orador, secundado por outros intervenientes, clarificou que as dificuldades eram dos próprios estudantes que mal se preparam para fazer a pesquisa das fontes, por um lado, derivado ao espírito de trabalho fácil.

II PAINEL
“Fontes Arquivísticas Como Instrumento de Análise das Políticas Agrárias Coloniais e Pós-Coloniais no Distrito de Manica: uma abordagem metodológica do FGDB (1950-1970) e da CNAC (1975-1981)”. Esta foi a comunicação apresentada pelo Dr. Arnaldo Pinto Teixeira Caliche, onde o orador questiona o tipo de informação de políticas agrárias que se encontram registadas em dois fundos, e avança aspectos metodológicos para a recolha e leitura de informações.

“A Fotografia Como Fonte Histórica: o caso da colecção Missão Mariano de Carvalho a Moçambique, em 1890”
Apresentado pela dra. Leonor Celeste Silva e dra. Deolinda Chamango, profissionais do Arquivo Histórico de Moçambique, a questão central desta comunicação foi divulgar o acervo fotográfico existente no AHM e incentivar o uso da mesma para a investigação científica.

O Dr. Simão Jaime fez uma apresentação sob o tema “Fontes sobre a Igreja Metodista Episcopal e os serviços médicos em Inhambane, 1890 a 1968”. O orador procura discutir o real objectivo dessa igreja face a algumas evidências encontradas nos documentos e entrevistas efectuadas, pois em várias ocasiões as igrejas aproveitaram-se dos serviços de saúde para evangelizar. Concluiu que a intenção das igrejas era a conversão dos africanos para colonizar e não providenciar serviços de saúde.
Para esta pesquisa, Simão Jaime trabalhou em diversas instituições para a recolha de dados, tais como: Arquivo Histórico de Moçambique, Igreja Episcopal de Moçambique, Arquivo Geral da Igreja Episcopal em Nova Jersey nos Estados Unidos da América e ainda entrevistas efectuadas em Chicuque, no distrito da Maxixe, Província de Inhambane.

III PAINEL

O último painel teve como ponto de partida o tema apresentado pelo Dr. Rafael Simone Nharreluga “Arquivo Histórico de Moçambique: 80 anos ao serviço da nação”. Nharreluga, aborda o processo histórico da criação do Arquivo Histórico de Moçambique e as implicações desse processo no cenário arquivístico nacional, bem como a sua relação com o projecto pós-colonial de nação, particularmente entre 1975 e 2010.
Concebendo o Arquivo Histórico de Moçambique como lugar de informação arquivística e de acção do Estado em Moçambique, a comunicação avalia a função desta instituição arquivística na viabilização do uso social da informação arquivística de natureza pública em Moçambique e na construção da nação.

“Arquivo Histórico de Moçambique: Macrocefalia e Descentralização”, foi o tema apresentado pelo Prof. Doutor Yussuf Adam, onde centrou a sua abordagem na necessidade de se proceder a descentralização desta instituição arquivística nacional, para as províncias e distritos. Acrescenta que a descentralização minimizaria a perda de muita documentação, não seleccionada. Por outro lado, observa alguma lacuna na relação entre o Arquivo Histórico de Moçambique e a comunidade no geral, propondo a promoção de actividades lúdicas e um intercâmbio permanente entre o Arquivo e escolas a partir de palestras para a divulgação do acervo de que dispõe.

“Desafios para a pesquisa no Arquivo Histórico de Moçambique”, apresentado pelo dr. Alberto Calbe Jaime, encerrou o III painel. Segundo o orador, a dispersão dos edifícios que compõem o Arquivo Histórico de Moçambique, constitui um desafio para os pesquisadores. Por outro lado, constata que a exiguidade de condições adequadas e de equipamentos com vista a acomodar os arquivos, constitui um constrangimento para a instituição.